|
Letícia
Barreto – desenhos e pinturas.
No
ano 2000 recebi uma bolsa de estudos da Fundação
Rotary International, a qual possibilitou que eu
tornasse à Itália para estudar Artes
Plásticas por mais um ano, (já havia
estudado em Florença, no mesmo instituto
em 98). Na mesma época, recebi um patrocínio
para uma exposição que eu estava preparando
com um amigo equatoriano chamado José Villena.
O tema escolhido para nossa exposição
foi o Espírito Latino para o Novo Milênio.
Este “Espírito Latino” foi uma
reflexão sobre nossos sentimentos, crenças
e necessidades, o amor e a paixão pela vida
que temos em nosso sangue, sem esquecer nossos problemas
políticos e sociais.
Na tentativa de continuar falando sobre a América
Latina sem usar a linguagem narrativa e ilustrativa
que era característica do meu trabalho até
então, eu encontrei o poeta Jorge Luis Borges.
Eu escolhi Borges para ir além dos problemas
políticos e sociais e para falar sobre o
espírito Latino Americano de maneira mais
poética. Comecei então a trabalhar
com alguns dos principais símbolos usados
por Borges em seus poemas: O labirinto, o espelho,
o tempo e a rosa, símbolos com os quais tenho
ligações pessoais.
Borges era argentino de nascimento, mas não
tinha uma pátria espiritual. Ele criou universos
imaginários e simbólicos onde brinca
com a mente e os sonhos, o tempo e o espaço.
A poesia de Borges é uma testemunha da crise
de identidade que o homem contemporâneo vem
enfrentando.
O
labirinto
É o meu símbolo favorito e o mais
presente em meu trabalho.
O labirinto é um símbolo antigo e
universal. Sua complexidade representa confusão
ou falta de direção. Como uma metáfora
da vida, ele simboliza a escolha necessária
de alcançar a segurança do centro,
(ou do lado de fora). Na mitologia grega o labirinto
era a casa do Minotauro, derrotado por Teseu que
encontrou a saída graças ao fio mágico
de Ariana. Em comum com a mandala e a alquimia,
em analogia religiosa, a passagem pelo labirinto
simboliza uma jornada espiritual na busca pela união
com o absoluto. Na interpretação psicológica,
o labirinto pode representar a confusão e
a contradição do inconsciente. A chegada
ao centro significa auto-conhecimento.
Borges nos mostra o labirinto como uma efetiva representação
metafórica da condição humana
neste novo milênio, onde as rápidas
transformações sociais, tecnológicas
e ecológicas terminaram por transformar o
futuro humano em uma grande incerteza. A civilização
contemporânea move-se constantemente em velocidade
cada vez maior, mas parece incapaz de especificar
um objetivo e direção. O homem contemporâneo,
portanto, move-se como dentro de um labirinto, cego
e mudo, provável vítima do monstro
que espera por ele no fim da jornada. Ninguém
conhece a aparência do Minotauro, mas uma
coisa é certa: nossa condição
é caracterizada por desorientação,
incerteza, angústia e solidão.
Mas o mito do labirinto possui também significados
positivos, representando a vitória da vida
sobre a morte, e como rota de melhora espiritual,
nossa transição a seres humanos superiores.
E é isso o que me atrai a esse símbolo.
Assim como o labirinto, a espiral pode representar
o mistério, o qual o iniciado só pode
descobrir seguindo seu caminho sinuoso. A espiral
é também presente na minha obra através
da sua representação em formas da
natureza e objetos como a concha e o violino.
O
espelho
Ele representa uma profunda reflexão pessoal,
uma metáfora de minha procura interna, a
partir da qual o crescimento espiritual é
possível. “A noção de
circularidade sem fim é presente em labirintos
tão como nos espelhos e sonhos que incluem
outros sonhos ou o sonhador” (Domenico Porzio).
O espelho é representado em meu trabalho
como metáfora de minhas memórias pessoais.
A rosa
Entre todas as plantas, a rosa é aquela no
qual o movimento de seu desabrochar é o mais
humano. A rosa também representa auto-transformação.
Na alquimia a rosa é o último estágio
do desenvolvimento interior. É considerada
como uma força luminosa, o eterno centro
da vida, símbolo de grande espiritualidade.
Alquimistas também dizem que dentro da rosa
está escondido o nosso “ouro”.
Brincando
com o enigmático universo de Borges
A
explicação que Borges dá ao
tipo de poesia que faz, encaixa-se perfeitamente
no tipo de pintura que eu procuro, um misto de abstração
e figuração.
“O intelecto, (a vigília), pensa através
de abstração; a poesia, (sonho), pensa
através de imagens, mitos e fábulas.
A poesia intelectual deve combinar os dois processos”.
Usando como inspiração os trabalhos
de Andy Goldsworthy, e também formas circulares
e espirais na natureza, eu estou recriando o universo
de Borges. Como em Borges, os símbolos são
usados não apenas pelo seu conceito, mas
também por razões estéticas,
pela beleza que possuem. O labirinto, com sua aparência
infinita e sua simetria vertiginosa possuem uma
beleza trágica.
Minhas pinturas são feitas em muitas camadas,
como um equivalente técnico do labirinto,
o símbolo mais importante na obra de Borges.
A superfície pictórica é construída
usando muita textura, onde um espaço não
uniforme, mas muito expressivo é criado.
A matéria adquire um valor muito mais expressivo
através de veladuras. Esta superfície
rica em texturas aparece mostrando a vibração
de cores diferentes.
Foi interessante perceber que a textura não
é importante para mim apenas por razões
estéticas. Eu sinto uma necessidade real
de ter substância física na minha tela.
É um princípio da alquimia produzir
simultaneamente a transformação da
matéria física externa e uma ativa
transformação interna do operador
do “opus”, do processo alquímico.
Eu sinto que a necessidade de textura é parte
do meu processo de libertação e transformação
criativa.
Conceitos são também um aspecto importante
no meu trabalho. Assim, eu limito o uso de cores
na minha paleta. Reduzindo a gama de cores, eu posso
concentrar-me muito mais na idéia. Minhas
cores não “gritam”, pois eu gosto
do silêncio na pintura. Isso acontece quando
eu uso marrons variados com um senso sutil de outras
cores, como azuis, verdes, vermelhos e laranjas
para obter mais vida e suavidade.
As composições são em geral
circulares, como uma referência ao labirinto.
Somada à composição, texturas
e pinceladas criam um senso de ritmo lírico.
Seguindo a estética de Borges, eu gosto de
criar em meu trabalho um universo fragmentado. O
elemento figurativo é então, mostrado
como um fragmento e é completamente integrado
no espaço Pegando um detalhe de um objeto,
um pequeno fragmento de um todo e ampliando-o, suavizando-o
de seu aspecto físico, eu integro este fragmento
ao plano de fundo, criando um espaço infinito.
Há uma espécie de dialogo entre a
figura e o espaço em que ela se encontra
que dá uma sensação de urgência.
Como se a figura só estivesse disponível
só por um segundo e você não
a pudesse perder. Brincando com o espaço
e a perspectiva, eu obtenho a atmosfera misteriosa
que é também presente na estética
de Borges.
|